Estou assistindo a “Yes, Minister”, uma comédia televisiva inglesa dos anos 80. A série se passa no gabinete de um ministro de primeira viagem e cobre a relação dele com os seus secretários, todos funcionários públicos experientes. O humor está quase todo na linguagem.
Os secretários são argutos e habilidosos para tergiversar, desconversar, iludir, elidir, circundar, retardar, retorquir e protelar. Já o ministro começa cândido e ingênuo. A figura mesma da pouca prática.
Além da graça do enredo, fui sequestrado pela cultura exibida pelos funcionários. Vários deles conhecem grego e latim. Todos demonstram boa cultura literária e excelente capacidade de redação e revisão de textos muito complicados.
Isso me fez lembrar que, durante o século passado, a Inglaterra abrigou Churchill, um líder político que era também um grande escritor. E, além dele, escritores magníficos como Tolkien, Rudyard Kipling e T. S. Eliot. Todos contemporâneos. E que ocasionalmente se esbarravam.
Digo isso porque a existência de burocratas ingleses versados nos clássicos da literatura universal, como se vê em “Yes, Minister”, é algo verossímil. O próprio Churchill, em suas memórias, mais ou menos lamenta não ter aprendido bem o latim e cita vários colegas seus que conheciam a língua.
Não é à toa que a Inglaterra formou e manteve um grande império. Com um corpo de funcionários capaz de recorrer mentalmente aos exemplos da guerra do Peloponeso ou das conquistas de César na Gália é muito mais fácil conceber um governo capaz de elaborar estratégias para controlar o Mediterrâneo ou competir com a França.
Qual a chance de topar com um funcionário público brasileiro que tenha esta formação? Eu diria que, nos altos círculos da diplomacia, a chance é pequena. Nas áreas imediatamente burocráticas, como gestão de segurança pública ou licitações, nunca ouvi falar que tal figura existisse.
Mais ao ponto: tal figura, se existe, certamente é odiada no serviço público e tem que esconder o que sabe. O Brasil não só esnoba a cultura como persegue quem a tem.
Por isso, nossa vida pública é vivida e decidida com base nos jargões mais superficiais disponíveis no momento. Exceto pelos pequenos grupos que estudam segmentos muito especializados da ciência política, como marxismo, feminismo, ou libertarianismo.