História mítica de Elomar
A musa grega da poesia épica, Calíope, recebeu um convite vindo das distantes terras do Brasil. O convite veio de uma ninfa aquática do Rio Tejo, rio de Portugal, mas que agora vive no sertão da Bahia, ali no entrelaçado dos rios que cruzam o Rio das Contas.
Contam que essa ninfa chegou a este rio da Bahia acompanhada de um bandeirante português, votado à missão antiga de expandir a fé e o império.
A ninfa teria narrado à musa: “há um menino aqui que tem o sangue dos menestréis antigos, minha irmã. Vem da linhagem de meu marido, João Gonçalves da Costa, que é um dos gigantes desta terra, do tempo em que o reino era cristão, e que adormeceu comigo nas contas e pedras deste rio.
Calíope respondeu: “vou votar este menino à arte sublime da retórica épica. Se ele me aceitar, saberá sacrificar sua vida para dar a esta terra o canto que vai salvá-la da ruína”.
E a musa, que não é senão outro nome do dom do espírito, atraiu o menino para as águas do Rio Gavião. O herói que lá habitava e a ninfa amiga dos navegadores o apadrinharam, batizando-o com 3 insígnias: escravo da beleza; matador de feras e cantador das batalhas do sol da justiça.
Nasceu então nosso poeta.
Se perguntarmos a algum passante a esmo pelas ruas do Brasil se ele conhece a obra de Elomar Figueira Melo, provavelmente ouviremos que não.
Elomar, sendo mistura raríssima de poeta, compositor e cantor, não se dedicou a ganhar fama. Ou, pelo menos, aceitou a fama que obteve, mas não se esforçou em promover-se.
Ao nosso transeunte, contudo, poderíamos dizer que nosso poeta o conhece muito bem, pois conhece as profundezas da cultura e da língua portuguesa. Especialmente, da língua do interior do Brasil, dos povoados em que tudo começou.
A obra poética de Elomar sem dúvida parte do regional. O primeiro contato com suas músicas assusta os brasileiros das cidades capitais, pois as letras são escritas num dialeto do português, chamado Sertanez.
Para quem nunca morou ou conviveu com a roça, a linguagem é difícil. O vocabulário está muito próximo do dia a dia dos vaqueiros e dos roçalianos, como por exemplo:
Vai trimina riduzi toda criação
Das bandas de lá do ri gavião
Chiquera pra cá já roncô o truvão
E, mesmo quando os temas são mais gerais, o palavreado, as figuras de linguagem e as expressões poéticas são tão belas quanto inusitadas. O trecho abaixo fala sobre a má sorte que se abateu sobre um nordestino que migrou para São Paulo.
mas foi perdedêra
creia in mias voiz
esse é o fim da história
apois a Sorte essa ramêra
madrasta cruel e algoiz
cumançê de palmatora
feito u`a fera
deu pru riba de nóis
A profusão de termos regionais arma uma armadilha (ou, como diria Elomar, uma arapuca) para o intérprete desavisado. Assoberbado com o trabalho de decifrar o dialeto, ele pode perder de vista a alma da obra.
Julgo eu que é por isso que nosso autor é muitas vezes considerado um regionalista, e não um poeta de abrangência ampla e que cumpre um papel único na lírica da língua portuguesa hoje.
A questão é: Elomar deve ser considerado um cantador regionalista ou um poeta universal da língua portuguesa?
Para mim, não há dúvida. Dois aspectos da obra dele me levam a enquadrá-lo como um poeta universal e não só a uma curiosidade folclórica e linguística do Nordeste.
Elomar como poeta de temas clássicos
A obra musical e poética do “príncipe da Caatinga”, não se prende a modos de expressão de sua paróquia. Ele está no Nordeste do Brasil, mas não resume suas poesias às métricas e aos estilos mais comuns nos dias de hoje.
Elomar não adota os modos priorizados pela indústria fonográfica. Sua música não é forró, nem maxixe, nem mangue beat. A poesia de duas letras não segue formas particulares de poesia de cordel, como os versos em sextilhas ou oito pés de quadrão. Tampouco é modernista.
Ao invés disso, ele trabalha muitos formatos simultaneamente. Seu cancioneiro traz cantigas trovadorescas, formato típico da idade média. Traz também formatos folclóricos (e, nesse sentido, verdadeiramente populares) como a chula portuguesa e canções de dia de reis. Em sua ópera “Auto da Catingueira”, há um momento em que dois violeiros percorrem vários tipos de ritmos regionais nordestinos. Todavia, isso é feito no contexto de um auto (por si uma forma de expressão medieval) que é apresentado ao público de modo operístico.
A lista acima não é abrangente, por certo. Mas é suficiente para indicar que a manifestação literária de Elomar obedece a um princípio unificador superior às convenções locais e atuais.
Não é especialmente nas formas, contudo, que a literatura do cantador se compara aos clássicos. Acima disso, deve-se notar que Elomar seleciona temas e abordagens trágicos e épicos, dignos de grandes narrativas poéticas.
Em suas cantigas, ele trata da guerra entre os índios da região de Vitória da Conquista e os desbravadores portugueses (um dos quais é antepassado de Elomar). E trata do tema em linguagem de guerra e conquista, como uma batalha entre dois lados valentes.
Quando trata da seca, não se resume à habitual cantilena que vitimiza o pobre nordestino. Suas músicas retratam a seca como situação imposta pelo universo aos habitantes do sertão, mas que convidam o sertanejo a tornar-se cada vez mais forte e cheio de fé, a fim de suportá-la e combatê-la.
São assim, a título de demonstração, os versos:
Nasceu e se criou no seio da caatinga
Na terra seca de nosso sinhô
Onde nem todo ano a planta vinga
Foi Deus que um dia assim determinou
E também estes, em que o poeta demonstra que, apesar das feras que andam soltas pela Sertão, como que numa festança, consumindo o que não foi morto pela seca, ele ainda acredita nas chuvas vindouras, que serão anunciadas pelos sapos:
Mas não há de ser nada
Na função das bestas
Prurriba da festa
Perigrina a fé
Sei que ainda resta
Cururu-tetê
O flagelo da seca, para Elomar, não é o açoite que maltrata um escravo indefeso, mas um entre muitos inimigos a serem vencidos por um cavaleiro heroico, personificado no sertanejo.
Outro aspecto que eleva a obra escrita ao patamar de poesia universal é seu uso grandiloquente da língua.
Para este pequeno ensaio, separei o uso brilhante que Elomar faz de uma figura de linguagem pouco valorizada nos dias de hoje, que é a enumeração.
A enumeração é um recurso muito utilizado na literatura épica e clássica. Na Ilíada são várias as listas de heróis e de povos. É um recurso apropriado à literatura de grande calibre, em que a narração precisa estar casada com o estilo altivo e com a valorização do que é descrito.
A Eneida, de Virgílio (por sinal uma grande influência para Elomar), pode ser trazida para ilustrar o papel desta figura de linguagem:
(…) a turba de Ereto, da rica Mustusca;
Os da cidade Nomento, de Rósea, dos Campos Velinos,
Das asperezas rochosas de Tétrica, do alto Severo;
Fórulos, os de Caspéria e os das margens vierentes do Himelas,
Homens do Tibre e os que as águas do Fábaris bebem, guerreiros
(Eneida, livro VII – Tradução de Carlos Alberto Nunes)
Enquanto Virgílio descreve exércitos e generais, Elomar aplica o mesmo tratamento grandioso à lista de raças de gado domadas por um vaqueiro.
Apois qui das nação de gado qui hai no mundo
Num tem um só boi qui num peguei:
(…)
Indubrasil, Nerol’, xuite, guadimá
Moura, junquêro, Pintado, nuve, alvação
Junquêro, giz, pé duro, landreis, malabá
Pintado, laranjo, rajado, lubião
boi de gabarro, banana, mocho ou armado
de curralêro ao levantado barbatão
Não por coincidência, o autor concede às raças de bois o nome de “nações de gado”, o que gera no leitor a impressão vívida de que o vaqueiro não é um domador de feras, mas um conquistador de pequenos impérios.
Nesta parte pequena da retórica e da arte literária, ele consegue efeitos quase homéricos. Em minha opinião, há poucos exemplos parecidos em língua portuguesa, sobretudo entre poetas vivos.
Elomar como poeta do sentido espiritual da vida humana
A dimensão mais profunda da obra de Elomar é também a mais universal.
Como numa espiral ascendente, nosso poeta parte do linguajar mais humilde para as cenas de ação heroicas. E, daí, pula para uma compreensão simbólica e espiritual da vida humana.
Na dimensão simbólica, uma das características da obra é que ela consegue restaurar, à força de frases poética de enorme beleza, a expressividade da língua portuguesa para os temas espirituais.
Notem como, neste trecho, ele trata do esquecimento do dever humano de dar graças à divindade. O contexto é que o personagem do poema foi acordado do sono pela algazarra dos bichos, todos anunciando a chegada da chuva
eu essa noite num pudo drumi
cá tribuzana dos bode pastor
bater dis asa, mareco, ariri
anra, pacuia, ferreiro e rodão
nem um dos bicho vivente parou
que foi dos are das água e do chão
ãnra, pacuia, ferreiro e rodão
todo os bixinho louvo
todo os bixin pagão
mesmo inhantes da chuva
só o bicho homi não
Em outro texto, chamado Campo Branco, Elomar dá às plantas do sertão (a “Sete casca”, a Aroeira e a Tatarena) o status de anunciadores de um tempo de salvação futura (o “tempo da vinda):
E esse tempo da vinda tá perto de vin
Sete casca, aruêra cantaram prá mim
Tatarena vai rodá vai botá fulô
Marela de u’a veis só
Prá ela de u’a veis só
Na Cantiga do Estradar, Elomar transcreve os deveres do cristão. Mas utiliza para isso novas expressões, que fogem da rigidez bíblica ou das formas já conhecidas do Sermão da Montanha.
ele insinô qui nois vivesse
a vida aqui só pru passá
nois intonce invitasse
o mau disejo e o coração
nois prufiasse pra sê branco
inda mais puro
qui o capucho do algudão
qui nun juntasse dividisse
nem negasse a quem pidisse
nosso amô o nosso bem
nossos terém nosso perdão
Ou seja, ele nos dá como que estruturas e recursos novos para relatar a experiência espiritual.
A obra de Elomar, em resumo, está permeada da noção de sentido metafísico e religioso da vida.
O sertanejo narrado por Elomar é um lutador que vive em meio a batalhas e sacrifícios. Não somente isso, mas também ser consciente da morte e que consegue enxergar nos seus arredores símbolos da aventura espiritual do ser humano, visto como um ser que tem consciência de seu destino trágico, mas também da possibilidade de reconciliação e resolução de sua tragédia, socorrendo-se em esferas mais elevadas da existência.
O sertanejo sofre, mas consegue dar sentido ao seu sofrimento, pois tem provas da providência divina em tudo o que o rodeia: animais, plantas, clima e o próprio sol.
A obra de nosso autor traz ao Brasil de hoje, portanto, uma mensagem de força e de significado transcendente.
O contraste com a moda do relativismo e do materialismo não poderia ser mais pronunciado.
Os dramas que ele narra pertencem à condição humana e beneficiarão gerações futuras, que precisarão, nos momentos de dificuldade, da força poética e da clareza de propósito tanto quanto a nossa.
Elomar, justamente por tratar de forma grandiloquentes de temas de importância central à vida, merece ser considerado um artista universal.
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