Sobre o massacre em Suzano

Se a escola é o local de transmissão da cultura de uma geração à outra, os massacres escolares são de fato uma atividade pedagógica. Constato isso com certo terror.

A cultura dominante é a do materialismo, da morte, do escárnio aos valores superiores, da violência contra inocentes por meio do terrorismo e do aborto, do “questionamento da ideia de justiça e de verdade”, do “satanismo é uma religião como as outras”.

Em suma, a cultura atual louva o caos,  produz o caos e o entrega aos alunos em exemplos práticos.

O massacre escolar é a microversão de uma sociedade materialista. É a revolução cultural vendida no varejo. É a feira de ciências da utopia revolucionária.

Sansão e a revolução sexual

O escritor E. phillistines-blind-samsonMichael Jones apresentou uma interpretação muito atual para a história de Sansão. Ele traz a história bíblica para o contexto do movimento político pela liberação sexual.

Sansão era um líder fortíssimo, que não podia ser vencido pelos filisteus, seus inimigos. Os filisteus, espertamente, conspiraram para ligar Sansão a uma mulher. Esta mulher, Dalila, tentou por todos os meios descobrir o segredo da força de Sansão. E tentava descaradamente, traindo a confiança de Sansão várias vezes. Sansão, cego de amores, desconsiderou os sinais óbvios da traição até que, enfim, contou  a ela o segredo de seu poder: sua ligação com Deus, simbolizada por seus cabelos.

Dalila cortou a conexão de Sansão com Deus e ele foi facilmente dominado por seus inimigos e, posteriormente, teve seus olhos arrancados. A cegueira da paixão e da luxúria tornou-se cegueira real. A impotência espiritual tornou-se incapacidade física.

Esse é, precisamente, o resultado esperado das políticas de liberação sexual. Deixar a juventude espiritual e moralmente cega por meio da exposição à pornografia e à estimulação sexual incessante, para que ela se torne incapaz.

E é óbvio que tem funcionado. O fenômeno do adulto com vida de adolescente, um homem de 30 anos, angustiado, totalmente dedicado a frivolidades como filmes nerd e quadrinhos japoneses, viciado em pornografia desde os 12 anos e que se sente mal se não se masturbar 03 vezes por dia, é o resultado imediato desse programa. O quadro está claríssimo.

Só resta ter a coragem de nomear quem corresponde aos filisteus.

*A imagem é um recorte do quadro “O cegamento de Sansão”, de Rembrandt.

“Yes, Minister” e a elite política letrada

yes ministerEstou assistindo a “Yes, Minister”, uma comédia televisiva inglesa dos anos 80. A série se passa no gabinete de um ministro de primeira viagem e cobre a relação dele com os seus secretários, todos funcionários públicos experientes. O humor está quase todo na linguagem.

Os secretários são argutos e habilidosos para tergiversar, desconversar, iludir, elidir, circundar, retardar, retorquir e protelar. Já o ministro começa cândido e ingênuo. A figura mesma da pouca prática.

Além da graça do enredo, fui sequestrado pela cultura exibida pelos funcionários. Vários deles conhecem grego e latim. Todos demonstram boa cultura literária e excelente capacidade de redação e revisão de textos muito complicados.

Isso me fez lembrar que, durante o século passado, a Inglaterra abrigou Churchill, um líder político que era também um grande escritor. E, além dele, escritores magníficos como Tolkien, Rudyard Kipling e T. S. Eliot. Todos contemporâneos. E que ocasionalmente se esbarravam.

Digo isso porque a existência de burocratas ingleses versados nos clássicos da literatura universal, como se vê em “Yes, Minister”,  é algo verossímil. O próprio Churchill, em suas memórias, mais ou menos lamenta não ter aprendido bem o latim e cita vários colegas seus que conheciam a língua.

Não é à toa que a Inglaterra formou e manteve um grande império. Com um corpo de funcionários capaz de recorrer mentalmente aos exemplos da guerra do Peloponeso ou das conquistas de César na Gália é muito mais fácil conceber um governo capaz de elaborar estratégias para controlar o Mediterrâneo ou competir com a França.

Qual a chance de topar com um funcionário público brasileiro que tenha esta formação? Eu diria que, nos altos círculos da diplomacia, a chance é pequena. Nas áreas imediatamente burocráticas, como gestão de segurança pública ou licitações, nunca ouvi falar que tal figura existisse.

Mais ao ponto: tal figura, se existe, certamente é odiada no serviço público e tem que esconder o que sabe.   O Brasil não só esnoba a cultura como persegue quem a tem.

Por isso, nossa vida pública é vivida e decidida com base nos jargões mais superficiais disponíveis no momento. Exceto pelos pequenos grupos que estudam segmentos muito especializados da ciência política, como marxismo, feminismo, ou libertarianismo.

Palmiteiros

Parte do movimento negro no Brasil desenvolveu um vocabulário interno e um conjunto de ideias objetivamente racistas.

O termo “palmiteiro” é um exemplo. Segundo eles, o negro que se apaixona por uma branca e quer constituir família é um tipo de traidor da raça.

Para mim, cada um dos termos utilizados nessa definição é absurdo.

O negro, no Brasil, não é perfeitamente negro. O branco não é perfeitamente branco. E a existência de diferenças raciais entre humanos não existe. Especialmente no Brasil, onde as pequisas genéticas indicam que s 83% da população brasileira tem, pelo menos, 10% de DNA negro. Ou seja, quase todo mundo é moreno, geneticamente falando.

Digamos que o movimento negro queira basear a classificação de raça apenas na cor da pele.

Neste caso é fato que a ala do movimento que usa palavras como “palmiteiro” quer controlar a vida amorosa e familiar dos seus membros, limitando a constituição de famílias entre morenos claros e morenos escuros (aos quais eles se referem como “brancos” e “negros”).

Ora, isso é, efetivamente, a instituição voluntária da segregação racial.

A segregação racial, especialmente na esfera sexual e familiar, é o instrumento clássico e típico de regimes tecnicamente racistas. Esta ala do movimento negro é racista. E, necessariamente, ignorante e maligna como todo grupo racista.

Eu noto que as pessoas fazem troça do movimento negro dizendo “imagine se um branco dissesse isso”. Mas não acho que seja uma linha de argumento persuasiva.

Na história do mundo, o racismo se aplicou a grupos etnicamente muito semelhantes. E, aos olhos de um observador externo, quase idênticos. Já houve racismo de ingleses em relação a irlandeses. De chineses contra mongóis. De miríades de tribos africanas umas contra outras. E mesmo de brasileiros do nordeste contra brasileiros do sudeste.

Para criticar essas situações, todas elas em conjunto, é preciso ir ao fundo do problema. O racismo é burro e irracional porque cria separações artificiais entre grupos humanos, com base em diferenciações falsas, visando a degradar um grupo injustamente. Isso o torno abjeto.

Por esses motivos, a ala do movimento negro que aceita a retórica segregacionista é abjeta.

O SINAL

O sinal

Punhal matou grande Júlio
matou até lampião
Heitor de Tróia varado
esboroou-se no chão

morreu na lança o mouro
venceu Ricardo Leão
fraterno laço e cutelo
vingaram Agamenão

se Simeão diz, atenta!
sinal de contradição
é o menino que trazes
pobre de teu coração

vem segurando o punhal,
na mão sinistra o autor
o que a recebe ao final
proclama o fim do terror

aço penetra fundura
o sangue salpica o chão
a alma já pede altura
pensa sair do cristão

cessa porém o tremor
sorri o mártir, calado
só sobe a alma ao Senhor
quando ele chama o soldado

A conquista da América e o amor aos pais

DXI3MSEWsAUSCPJHoje me deparei com essa pintura, chamada “Mercúrio, Minerva e o Novo Mundo” (Barthelemy Joseph Fulcran Roger, 1817).

Dois deuses gregos amparam e consolam um personagem Asteca.

Atena oferece um ramo de oliveira, simbolizando a paz entre a cidade derrotada e a nova civilização que virá absorvê-la.

Apesar de os deuses serem gregos, o quadro representa, de forma mais ampla, a cultura ocidental. É costumeiro que símbolos de Grécia e Roma sejam usados para indicar qualidades da civilização cristã. Nos Lusíadas, por exemplo, Camões demarca toda a história dos descobrimentos com querelas entre deuses gregos, especialmente entre Afrodite, protetora de Portugal, e Baco, que deseja atrapalhar os portugueses.

A força da religião cristã é simbolizada pelo gesto de Mercúrio. Ele sustém a mão do índio desanimado, indicando que os vencedores não vieram para destruir, mas para amar seus antigos inimigos.

O paradoxo do amor ao inimigo é a chave para o sentido geral do quadro.  Atena é a deusa da civilização e da paz, embora também governe a guerra. E Mercúrio traz em si o comércio e a riqueza, mas é também um mensageiro entre os deuses e a terra. Estes dois deuses, que representam em si mesmos o conflito civilizacional entre a violência e a ordem, quando estão juntos exprimem que a América foi derrotada para ocupar um lugar mais alto do que tinha antes na história do mundo.

Mercúrio simboliza o anjo que nos leva, com mão segura, para o alto.

Esta temática foi comum durante certo tempo. Nova Iorque foi construída como a nova Roma (não é por acaso que seu lema é “The Empire State”).  E, desde sempre, toda a América, da Argentina ao Canadá,  foi chamada de o Novo Mundo.

Que carinho enorme o autor desta obra de arte tinha pela nossa cultura.

Nós todos, americanos ocidentalizados e cristianizados, amávamos nossa herança grega e latina e tínhamos orgulho porque nossos antepassados entregaram o catecismo católico aos índios, seja no Brasil, seja no México.

Um exemplo disso é que, no nosso país, José de Anchieta ensinava aos índios poesias religiosas com versos simples e bonitos, escritos na língua Tupi.   Um deles, que eu aprecio muito, é este sobre Nossa Senhora:

Tupã sy, xe sy abé
(Mãe de Deus, minha mãe também)

Eu fico feliz e grato que minha terra tenha recebido o melhor da Europa e que meus avós tenham tido a paciência e o zelo de entregarem esta cultura a mim.

Salários dos juízes e campanha midiática

Primeiramente: não pensem que a atual campanha midiática contra o auxílio-moradia tem a ver com redução de gastos. É um ataque aos juízes, por causa da recente condenação do Lula (o mesmo ocorreu em 2016).

Mais ao ponto: eu não acho ruim o auxílio-moradia dos juízes. Nem o salário deles. Aliás, nem os salários dos parlamentares. Acho que esses temas estão relacionados a outras questões muito mais complicadas, que ninguém tem interesse em avaliar, muito menos em solucionar.

Exemplo:

a) muitos políticos são ricos e não precisam de salário. Mas, se você corta o salário dos políticos, está praticamente condenando os pobres a jamais ocuparem cargos públicos. Seria o retorno da aristocracia: só os ricos têm tempo e renda disponível para a política.

b) já que eles têm que receber salário, qual salário? Vamos equipará-los a diretores de empresas, a funcionários públicos médios ou a pessoas que recebem salário mínimo?

b.1) Cada uma dessas opções traz seu elenco de probleminhas. A equiparação a diretores nos dá o cenário de hoje. A equiparação a funcionários públicos médios arrisca guinchar todos os salários públicos para cima, ano a ano, com impacto gigantesco no orçamento.  Agora, se altos funcionários, como diplomatas e presidentes,  receberem salário mínimo então que será preciso criar um orçamento federal paralelo para comprar giletes, sapatos, perfume, dentadura, etc. (afinal, é desmoralizante frente à comunidade das nações ter um presidente mal ajambrado ou um diplomata careado e usando relógio de 1,99).

c) todo mundo sabe que os juízes aceitam extras no salário porque o salário deles não segue o reajuste legal, com reparação da inflação.
c.1) o reajuste pela inflação parece um privilégio. Mas, num país de histórico inflacionário, é a única forma de impedir que o governo federal mate os juízes de fome (a irredutibilidade dos salários dos juízes é uma garantia essencial para um judiciário independente);
c.2) É vergonhoso que o judiciário colabore com a fraude a lei. Os juízes seriam mais dignos se mandassem prender todos os ministros da fazenda dos últimos anos, ao invés de aceitarem um reajuste por vias tortuosas. Os juízes vendem suas garantias barato, pelo preço de um aluguel. Por isso, merecem desprezo. Não por ganharem muito, mas por não lutarem por ganhar o que é de justiça para eles.

d) Por que os jornais cismam com os juízes, se os promotores e defensores públicos estão em situação semelhante? É evidente que é porque o MP e os defensores são mais de esquerda que os juízes, em média.

e) A esquerda diz que um dos motivos da corrupção dos policiais no Rio é que eles ganham pouco e moram na favela.  Da mesma forma, um dos motivos para os parcos resultados da educação brasileira seria o baixo salário dos professores. É um raciocínio materialista-mecanicista.
O mesmo raciocínio não se aplica aos juízes? Um juiz ganhando R$1.000,00 provavelmente seria mais fácil de corromper do que um juiz ganhando R$20.000,00?
Se seria mesmo, eu não sei dizer. Penso até que não, porque a escolha pelo crime é antes um drama individual do que uma função matemática relacionada ao saldo bancário. Mas TENHO CERTEZA que o mesmo jornal que diz que a culpa da educação ruim é o baixo salário do professor teria que concluir que a justiça que temos, no que tem de bom, o tem em razão dos altos salários dos juízes. E que, se a educação só melhoraria com aumento de salários, o mesmo valeria para a justiça.

ELOMAR – REGIONAL OU UNIVERSAL?

História mítica de Elomar

A musa grega da poesia épica, Calíope, recebeu um convite vindo das distantes terras do Brasil. O convite veio de uma ninfa aquática do Rio Tejo, rio de Portugal, mas que agora vive no sertão da Bahia, ali no entrelaçado dos rios que cruzam o Rio das Contas.

 Contam que essa ninfa chegou a este rio da Bahia acompanhada de um bandeirante português, votado à missão antiga de expandir a fé e o império.

 A ninfa teria narrado à musa: “há um menino aqui que tem o sangue dos menestréis antigos, minha irmã. Vem da linhagem de meu marido, João Gonçalves da Costa, que é um dos gigantes desta terra, do tempo em que o reino era cristão, e que adormeceu comigo nas contas e pedras deste rio.

 Calíope respondeu: “vou votar este menino à arte sublime da retórica épica. Se ele me aceitar, saberá sacrificar sua vida para dar a esta terra o canto que vai salvá-la da ruína”.

 E a musa, que não é senão outro nome do dom do espírito, atraiu o menino para as águas do Rio Gavião. O herói que lá habitava e a ninfa amiga dos navegadores o apadrinharam, batizando-o com 3 insígnias: escravo da beleza; matador de feras e cantador das batalhas do sol da justiça.

 Nasceu então nosso poeta.

Se perguntarmos a algum passante a esmo pelas ruas do Brasil se ele conhece a obra de Elomar Figueira Melo, provavelmente ouviremos que não.

Elomar, sendo mistura raríssima de poeta, compositor e cantor, não se dedicou a ganhar fama. Ou, pelo menos, aceitou a fama que obteve, mas não se esforçou em promover-se.

Ao nosso transeunte, contudo, poderíamos dizer que nosso poeta o conhece muito bem, pois conhece as profundezas da cultura e da língua portuguesa. Especialmente, da língua do interior do Brasil, dos povoados em que tudo começou.

A obra poética de Elomar sem dúvida parte do regional. O primeiro contato com suas músicas assusta os brasileiros das cidades capitais, pois as letras são escritas num dialeto do português, chamado Sertanez.

Para quem nunca morou ou conviveu com a roça, a linguagem é difícil. O vocabulário está muito próximo do dia a dia dos vaqueiros e dos roçalianos, como por exemplo:

Vai trimina riduzi toda criação

Das bandas de lá do ri gavião

Chiquera pra cá já roncô o truvão

E, mesmo quando os temas são mais gerais, o palavreado, as figuras de linguagem e as expressões poéticas são tão belas quanto inusitadas. O trecho abaixo fala sobre a má sorte que se abateu sobre um nordestino que migrou para São Paulo.

mas foi perdedêra

creia in mias voiz

esse é o fim da história

apois a Sorte essa ramêra

madrasta cruel e algoiz

cumançê de palmatora

feito u`a fera

deu pru riba de nóis

A profusão de termos regionais arma uma armadilha (ou, como diria Elomar, uma arapuca) para o intérprete desavisado. Assoberbado com o trabalho de decifrar o dialeto, ele pode perder de vista a alma da obra.

Julgo eu que é por isso que nosso autor é muitas vezes considerado um regionalista, e não um poeta de abrangência ampla e que cumpre um papel único na lírica da língua portuguesa hoje.

A questão é: Elomar deve ser considerado um cantador regionalista ou um poeta universal da língua portuguesa?

Para mim, não há dúvida. Dois aspectos da obra dele me levam a enquadrá-lo como um poeta universal e não só a uma curiosidade folclórica e linguística do Nordeste.

Elomar como poeta de temas clássicos

A obra musical e poética do “príncipe da Caatinga”, não se prende a modos de expressão de sua paróquia. Ele está no Nordeste do Brasil, mas não resume suas poesias às métricas e aos estilos mais comuns nos dias de hoje.

Elomar não adota os modos priorizados pela indústria fonográfica. Sua música não é forró, nem maxixe, nem mangue beat.  A poesia de duas letras não segue formas particulares de poesia de cordel, como os versos em sextilhas ou oito pés de quadrão. Tampouco é modernista.

Ao invés disso, ele trabalha muitos formatos simultaneamente. Seu cancioneiro traz cantigas trovadorescas, formato típico da idade média. Traz também formatos folclóricos (e, nesse sentido, verdadeiramente populares) como a chula portuguesa e canções de dia de reis. Em sua ópera “Auto da Catingueira”, há um momento em que dois violeiros percorrem vários tipos de ritmos regionais nordestinos. Todavia, isso é feito no contexto de um auto (por si uma forma de expressão medieval) que é apresentado ao público de modo operístico.

A lista acima não é abrangente, por certo. Mas é suficiente para indicar que a manifestação literária de Elomar obedece a um princípio unificador superior às convenções locais e atuais.

Não é especialmente nas formas, contudo,  que a literatura do cantador se compara aos clássicos. Acima disso, deve-se notar que Elomar seleciona temas e abordagens trágicos e épicos, dignos de grandes narrativas poéticas.

Em suas cantigas, ele trata da guerra entre os índios da região de Vitória da Conquista e os desbravadores portugueses (um dos quais é antepassado de Elomar). E trata do tema em linguagem de guerra e conquista, como uma batalha entre dois lados valentes.

Quando trata da seca, não se resume à habitual cantilena que vitimiza o pobre nordestino. Suas músicas retratam a seca como situação imposta pelo universo aos habitantes do sertão, mas que convidam o sertanejo a tornar-se cada vez mais forte e cheio de fé, a fim de suportá-la e combatê-la.

São assim, a título de demonstração, os versos:

Nasceu e se criou no seio da caatinga

Na terra seca de nosso sinhô

Onde nem todo ano a planta vinga

Foi Deus que um dia assim determinou

E também estes, em que o poeta demonstra que, apesar das feras que andam soltas pela Sertão, como que numa festança, consumindo o que não foi morto pela seca, ele ainda acredita nas chuvas vindouras, que serão anunciadas pelos sapos:

Mas não há de ser nada

Na função das bestas

Prurriba da festa

Perigrina a fé

Sei que ainda resta

Cururu-tetê

O flagelo da seca, para Elomar, não é o açoite que maltrata um escravo indefeso, mas um entre muitos inimigos a serem vencidos por um cavaleiro heroico, personificado no sertanejo.

Outro aspecto que eleva a obra escrita ao patamar de poesia universal é seu uso grandiloquente da língua.

Para este pequeno ensaio, separei o uso brilhante que Elomar faz de uma figura de linguagem pouco valorizada nos dias de hoje, que é a enumeração.

A enumeração é um recurso muito utilizado na literatura épica e clássica. Na Ilíada são várias as listas de heróis e de povos. É um recurso apropriado à literatura de grande calibre, em que a narração precisa estar casada com o estilo altivo e com a valorização do que é descrito.

A Eneida, de Virgílio (por sinal uma grande influência para Elomar), pode ser trazida para ilustrar o papel desta figura de linguagem:

(…) a turba de Ereto, da rica Mustusca;

Os da cidade Nomento, de Rósea, dos Campos Velinos,

Das asperezas rochosas de Tétrica, do alto Severo;

Fórulos, os de Caspéria e os das margens vierentes do Himelas,

Homens do Tibre e os que as águas do Fábaris bebem, guerreiros

(Eneida, livro VII – Tradução de Carlos Alberto Nunes)

Enquanto Virgílio descreve exércitos e generais, Elomar aplica o mesmo tratamento grandioso à lista de raças de gado domadas por um vaqueiro.

 

Apois qui das nação de gado qui hai no mundo

Num tem um só boi qui num peguei:

(…)

Indubrasil, Nerol’, xuite, guadimá

 Moura, junquêro, Pintado, nuve, alvação

 Junquêro, giz, pé duro,  landreis, malabá

Pintado, laranjo, rajado, lubião

boi de gabarro, banana, mocho ou armado

de curralêro ao levantado barbatão

 

Não por coincidência, o autor concede às raças de bois o nome de “nações de gado”, o que gera no leitor a impressão vívida de que o vaqueiro não é um domador de feras, mas um conquistador de pequenos impérios.

Nesta parte pequena da retórica e da arte literária, ele consegue efeitos quase homéricos. Em minha opinião, há poucos exemplos parecidos em língua portuguesa, sobretudo entre poetas vivos.

Elomar como poeta do sentido espiritual da vida humana

A dimensão mais profunda da obra de Elomar é também a mais universal.

Como numa espiral ascendente, nosso poeta parte do linguajar mais humilde para as cenas de ação heroicas. E, daí, pula para uma compreensão simbólica e espiritual da vida humana.

Na dimensão simbólica, uma das características da obra é que ela consegue restaurar, à força de frases poética de enorme beleza, a expressividade da língua portuguesa para os temas espirituais.

Notem como, neste trecho, ele trata do esquecimento do dever humano de dar graças à divindade. O contexto é que o personagem do poema foi acordado do sono pela algazarra dos bichos, todos anunciando a chegada da chuva

eu essa noite num pudo drumi

cá tribuzana dos bode pastor

bater dis asa, mareco, ariri

anra, pacuia, ferreiro e rodão

 

nem um dos bicho vivente parou

que foi dos are das água e do chão

 

ãnra, pacuia, ferreiro e rodão

todo os bixinho louvo

todo os bixin pagão

mesmo inhantes da chuva

só o bicho homi não

Em outro texto, chamado Campo Branco, Elomar dá às plantas do sertão (a “Sete casca”, a Aroeira e a Tatarena) o status de anunciadores de um tempo de salvação futura (o “tempo da vinda):

E esse tempo da vinda tá perto de vin

Sete casca, aruêra cantaram prá mim

Tatarena vai rodá vai botá fulô

Marela de u’a veis só

Prá ela de u’a veis só

 

Na Cantiga do Estradar, Elomar transcreve os deveres do cristão. Mas utiliza para isso novas expressões, que fogem da rigidez bíblica ou das formas já conhecidas do Sermão da Montanha.

ele insinô qui nois vivesse

a vida aqui só pru passá

nois intonce invitasse

o mau disejo e o coração

nois prufiasse pra sê branco

inda mais puro

qui o capucho do algudão

qui nun juntasse dividisse

nem negasse a quem pidisse

nosso amô o nosso bem

nossos terém nosso perdão

Ou seja, ele nos dá como que estruturas e recursos novos para relatar a experiência espiritual.

A obra de Elomar, em resumo, está permeada da noção de sentido metafísico e religioso da vida.

O sertanejo narrado por Elomar é um lutador que vive em meio a batalhas e sacrifícios.  Não somente isso, mas também ser consciente da morte e que consegue enxergar nos seus arredores símbolos da aventura espiritual do ser humano, visto como um ser que tem consciência de seu destino trágico, mas também da possibilidade de reconciliação e resolução de sua tragédia, socorrendo-se em esferas mais elevadas da existência.

O sertanejo sofre, mas consegue dar sentido ao seu sofrimento, pois tem provas da providência divina em tudo o que o rodeia: animais, plantas, clima e o próprio sol.

A obra de nosso autor traz ao Brasil de hoje, portanto, uma mensagem de força e de significado transcendente.

O contraste com a moda do relativismo e do materialismo não poderia ser mais pronunciado.

Os dramas que ele narra pertencem à condição humana e beneficiarão gerações futuras, que precisarão, nos momentos de dificuldade, da força poética e da clareza de propósito tanto quanto a nossa.

Elomar, justamente por tratar de forma grandiloquentes de temas de importância central à vida, merece ser considerado um artista universal.

Consulta aberta – regulação da lei de migração

A lei de migração (novo estatuto do estrangeiro) foi um momento bem trapalhão para o movimento conservador no Brasil.

Os proponentes da lei aparentavam ter um projeto claro. O discurso justificador incluía direitos humanos, diversidade, superação de leis da época da ditadura e outros elementos.

As respostas do movimento conservador foram bastante impulsivas e demonstraram que provavelmente era a primeira vez que os conservadores contemplavam o assunto.  Houve, notadamente, menções ao medo de migração islâmica em massa.

Depois que a lei já estava pronta, houve algumas análises jurídicas do texto. Bem feitas. Mas ficaram principalmente restritas ao campo jurídico. Não houve uma análise dialética completa, que abordasse e articulasse várias dimensões do tema.

Um estudo abrangente do assunto poderia abordar:

       a) efeitos no mercado de trabalho

Qual tipo de lei propiciaria atração de mão de obra qualificada e repulsão de mão de obra que venha a competir com o trabalhador que ganha o salário médio.

b) efeitos populacionais 

Qual o percentual de estrangeiros que queremos na população?

c) integração com outros países falantes de língua portuguesa

Existem maneiras de integrar a política migratória a uma política geral de integração da lusofonia?

Embora a primeira oportunidade de assumir a liderança intelectual sobre este assunto tenha sido perdida, há uma segunda oportunidade surgindo. A consulta pública sobre a regulamentação da lei acaba de ser aberta (link).

O que nos leva à pergunta: quem, fora do movimento intelectual de esquerda,  teria condições intelectuais e materiais de conduzir estudos deste tipo?

Imagino que algum instituto liberal possa conduzir um estudo focado na parte econômica. Em relação aos outros temas sugeridos (lusofonia e demografia), desconheço quem possa fazer.

Este caso, por menor que possa ser, ilustra bem desproporção entre os recursos intelectuais e humanos disponíveis à esquerda e os recursos disponíveis ao movimento liberal/conservador.

O movimento liberal/conservador vive, ao que parece, da contribuição que alguns heróis individuais fazem aos campos específicos que estudam.

Mas, para o estudo de temas rotineiros da ciência do estado, incluindo nível ótimo de taxação, salário de servidores públicos e reforma da previdência, tudo o que resta é a reciclagem de estudos oficiais, produzidos por órgãos como CADE, IBGE e BNDES, que muitas vezes são geridos por pessoas indicadas pelo setor político dominado pela esquerda.

Até o momento, está claro para mim que a regulamentação da lei de migração também será dominada por intelectuais de esquerda. A menos que surja uma inteligência individual disposta a estudar o tema ou um líder que organize (financie) estudos a este respeito.