Salários dos juízes e campanha midiática

Primeiramente: não pensem que a atual campanha midiática contra o auxílio-moradia tem a ver com redução de gastos. É um ataque aos juízes, por causa da recente condenação do Lula (o mesmo ocorreu em 2016).

Mais ao ponto: eu não acho ruim o auxílio-moradia dos juízes. Nem o salário deles. Aliás, nem os salários dos parlamentares. Acho que esses temas estão relacionados a outras questões muito mais complicadas, que ninguém tem interesse em avaliar, muito menos em solucionar.

Exemplo:

a) muitos políticos são ricos e não precisam de salário. Mas, se você corta o salário dos políticos, está praticamente condenando os pobres a jamais ocuparem cargos públicos. Seria o retorno da aristocracia: só os ricos têm tempo e renda disponível para a política.

b) já que eles têm que receber salário, qual salário? Vamos equipará-los a diretores de empresas, a funcionários públicos médios ou a pessoas que recebem salário mínimo?

b.1) Cada uma dessas opções traz seu elenco de probleminhas. A equiparação a diretores nos dá o cenário de hoje. A equiparação a funcionários públicos médios arrisca guinchar todos os salários públicos para cima, ano a ano, com impacto gigantesco no orçamento.  Agora, se altos funcionários, como diplomatas e presidentes,  receberem salário mínimo então que será preciso criar um orçamento federal paralelo para comprar giletes, sapatos, perfume, dentadura, etc. (afinal, é desmoralizante frente à comunidade das nações ter um presidente mal ajambrado ou um diplomata careado e usando relógio de 1,99).

c) todo mundo sabe que os juízes aceitam extras no salário porque o salário deles não segue o reajuste legal, com reparação da inflação.
c.1) o reajuste pela inflação parece um privilégio. Mas, num país de histórico inflacionário, é a única forma de impedir que o governo federal mate os juízes de fome (a irredutibilidade dos salários dos juízes é uma garantia essencial para um judiciário independente);
c.2) É vergonhoso que o judiciário colabore com a fraude a lei. Os juízes seriam mais dignos se mandassem prender todos os ministros da fazenda dos últimos anos, ao invés de aceitarem um reajuste por vias tortuosas. Os juízes vendem suas garantias barato, pelo preço de um aluguel. Por isso, merecem desprezo. Não por ganharem muito, mas por não lutarem por ganhar o que é de justiça para eles.

d) Por que os jornais cismam com os juízes, se os promotores e defensores públicos estão em situação semelhante? É evidente que é porque o MP e os defensores são mais de esquerda que os juízes, em média.

e) A esquerda diz que um dos motivos da corrupção dos policiais no Rio é que eles ganham pouco e moram na favela.  Da mesma forma, um dos motivos para os parcos resultados da educação brasileira seria o baixo salário dos professores. É um raciocínio materialista-mecanicista.
O mesmo raciocínio não se aplica aos juízes? Um juiz ganhando R$1.000,00 provavelmente seria mais fácil de corromper do que um juiz ganhando R$20.000,00?
Se seria mesmo, eu não sei dizer. Penso até que não, porque a escolha pelo crime é antes um drama individual do que uma função matemática relacionada ao saldo bancário. Mas TENHO CERTEZA que o mesmo jornal que diz que a culpa da educação ruim é o baixo salário do professor teria que concluir que a justiça que temos, no que tem de bom, o tem em razão dos altos salários dos juízes. E que, se a educação só melhoraria com aumento de salários, o mesmo valeria para a justiça.

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