A lei de migração (novo estatuto do estrangeiro) foi um momento bem trapalhão para o movimento conservador no Brasil.
Os proponentes da lei aparentavam ter um projeto claro. O discurso justificador incluía direitos humanos, diversidade, superação de leis da época da ditadura e outros elementos.
As respostas do movimento conservador foram bastante impulsivas e demonstraram que provavelmente era a primeira vez que os conservadores contemplavam o assunto. Houve, notadamente, menções ao medo de migração islâmica em massa.
Depois que a lei já estava pronta, houve algumas análises jurídicas do texto. Bem feitas. Mas ficaram principalmente restritas ao campo jurídico. Não houve uma análise dialética completa, que abordasse e articulasse várias dimensões do tema.
Um estudo abrangente do assunto poderia abordar:
a) efeitos no mercado de trabalho
Qual tipo de lei propiciaria atração de mão de obra qualificada e repulsão de mão de obra que venha a competir com o trabalhador que ganha o salário médio.
b) efeitos populacionais
Qual o percentual de estrangeiros que queremos na população?
c) integração com outros países falantes de língua portuguesa
Existem maneiras de integrar a política migratória a uma política geral de integração da lusofonia?
Embora a primeira oportunidade de assumir a liderança intelectual sobre este assunto tenha sido perdida, há uma segunda oportunidade surgindo. A consulta pública sobre a regulamentação da lei acaba de ser aberta (link).
O que nos leva à pergunta: quem, fora do movimento intelectual de esquerda, teria condições intelectuais e materiais de conduzir estudos deste tipo?
Imagino que algum instituto liberal possa conduzir um estudo focado na parte econômica. Em relação aos outros temas sugeridos (lusofonia e demografia), desconheço quem possa fazer.
Este caso, por menor que possa ser, ilustra bem desproporção entre os recursos intelectuais e humanos disponíveis à esquerda e os recursos disponíveis ao movimento liberal/conservador.
O movimento liberal/conservador vive, ao que parece, da contribuição que alguns heróis individuais fazem aos campos específicos que estudam.
Mas, para o estudo de temas rotineiros da ciência do estado, incluindo nível ótimo de taxação, salário de servidores públicos e reforma da previdência, tudo o que resta é a reciclagem de estudos oficiais, produzidos por órgãos como CADE, IBGE e BNDES, que muitas vezes são geridos por pessoas indicadas pelo setor político dominado pela esquerda.
Até o momento, está claro para mim que a regulamentação da lei de migração também será dominada por intelectuais de esquerda. A menos que surja uma inteligência individual disposta a estudar o tema ou um líder que organize (financie) estudos a este respeito.